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Neste texto de opinião, Mariana Lourenço descreve a sua experiência durante a praxe. Não esquece os momentos positivos, que existiram, mas também fala dos negativos.

Antes de entrar no ensino superior, a praxe sempre foi um “sim” na minha vida. Sempre ambicionei integrar toda a cultura praxística, devido a todas as experiências que ouvia de pessoas próximas e a todo o conceito associado à praxe. E assim foi. Quando entrei para a universidade, não hesitei em dar os meus dados para fazer parte das atividades de integração. 

Todos temos (ou, pelo menos, eu tinha), apesar da má fama, uma ideia da praxe como uma forma de fazer amizades mais facilmente, conhecer novas pessoas de todos os anos, um meio de distração e diversão. E a verdade é que estas conceções não batem certo com o que vivi em várias situações. 

Inicialmente, a minha opinião sobre a praxe manteve-se positiva e era, de facto, em parte, um momento divertido do meu dia, mas com o passar do tempo começava a ser chato. Primeiro porque as atividades praxisticas da academia de Leiria são realizadas durante todo o ano letivo, algo que, no meu caso, foi salvo pelo início da pandemia. Depois a questão de que, fora das praxes, não podíamos conviver com os nossos superiores, porque isso seria considerado a chamada “caça-afilhados”. Ou seja, toda o conceito de integração associado à praxe torna-se um bocado controverso quando me deparo com esta regra. Surge uma certa competição entre os superiores no que toca a ter afilhados, mas só deixa os caloiros ainda mais perdidos. Como é que escolhemos os nossos padrinhos se não os conhecemos fora do contexto de praxe? Será que vamos ser compatíveis?

No entanto, na altura achei que seria algo normal e fui continuando a ir, pois também queria perceber o que era estar do lado dos denominados doutores e, só quem tivesse uma participação assídua e dedicada, poderia praxar no ano seguinte. Outro ponto negativo e não inclusivo. 

Entretanto, estas atividades ficaram proibidas devido à pandemia, mas foram retomadas em contexto online no início do segundo ano de licenciatura antes da entrada dos novos caloiros. O cenário era uma chamada zoom com os nossos superiores, cada um em sua casa. Nós, os ainda caloiros, de joelhos, por vezes, a olhar para o chão no conforto da nossa casa. Parece impossível, mas era a praxe online a que nos sujeitámos para podermos ser trajados com poder. A verdade é que a vontade de experienciar o ato de praxar era maior do que a vontade de estar ali em frente a um computador a responder a questões relativas ao código de praxe, que em nada me iria ajudar no futuro. 

Foi então que consegui de facto esse tão difícil papel de praxar, mas o interesse foi-se logo. As praxes continuavam online, a adesão foi muito baixa e eram momentos que se tornaram chatos e desconfortáveis, na minha opinião. Por isso, simplesmente deixei de aparecer e de participar em qualquer atividade relativa à praxe. 

A somar a tudo isto, surgem também as regras do código de praxe que ultrapassam a barreira das liberdades individuais. A proibição de utilizar unhas pintadas ou de gel, quer das mãos ou dos pés; a proibição de utilizar acessórios que não sejam de ouro ou prata; a necessidade de uma permissão para pintar o cabelo de cores não naturais. Tudo isto era proibido durante o uso do traje, algo que poderia fazer sentido na década de 80, quando surgiram as praxes, mas que agora já não deveria acontecer. 

O objetivo, que é a integração, foi sendo desconstruído pelas variantes que se foram manifestando pelo país. O conceito foi muitas vezes associado a humilhação e até a morte. Há tradições que merecem ser mantidas, tal como elas são, há muitas outras que devem ser reavaliadas e discutidas consoante a evolução da sociedade e, consequentemente, adaptadas ou simplesmente abolidas. Considero que é importante manter atividades de integração nas universidades, mas a praxe necessita de ser aprimorada e encarada de forma descontraída e confortável para todos os envolvidos. 

Esta foi a minha experiência que, apesar de exaustiva, também teve partes boas. Fiz muitas amizades devido à praxe e tornámo-nos mais unidos. Tivemos momentos em praxe muito divertidos, que vou recordar sempre. A disputa entre cursos é emocionante e é algo que nos deixa orgulhosos uns dos outros quando sentimos que fomos bons. E era bom que fosse só isso, mas tudo o resto torna a praxe em algo desnecessário. Todas as academias são diferentes, tal como todos nós, e cada um possui maneiras diferentes de encarar esta atividade. Por isso, é sempre bom experimentar novas aventuras e mantê-las apenas se nos fizerem sentir bem e confortáveis.

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