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Catarina Baptista leu “Odisseia” e “Ilídia”, e diz preferir a segunda. Mas houve mais livros que a acompanharam durante o ensino superior.

“Inconstante, como aura, é, por natureza, o pensamento dos jovens”, já dizia Homero na “Ilíada”. Como revejo nos jovens, estudantes destes tempos, a virtude de saber aprender e querer conhecer. Homero parecia reconhecer tal capacidade já há vários séculos, ainda quando a faculdade não era de todo uma realidade.

Muitos são os livros, novos e velhos, robustos e finos, científicos e fictícios que nos passam pelas mãos no nosso percurso académico. Uns marcaram mais do que outros, claro está, mas sem dúvida que algum nos impactou de alguma forma. É óbvio que, dependendo do curso, os livros que nos chegam são de teor distinto. Sendo aluna da Faculdade de Letras era certo que, desde o início, iria dedicar muito tempo à leitura. Desde os clássicos, aos menos convencionais, passei os olhos por muitos livros, alguns até mais do que uma vez. Posso até dizer que aprendi verdadeiramente a gostar de ler na faculdade. Talvez tenha sido a influência dos professores, pela maneira erudita e apaixonada, de falarem sobre os livros, ou então pelo meu gosto de ler certos temas ou mesmo por uma recém-descoberta predisposição intelectual para os ler, que antes não teria.

Dos livros que tive de ler na faculdade, é crucial mencionar em primeiro lugar as obras “Ilíada” e “Odisseia” de Homero. As epopeias não são para o paladar literário de qualquer um. Podem-se revelar muito excêntricas e hiperbólicas em demasia. Contudo, li e reli estes clássicos em várias cadeiras e adorei em qualquer uma dessas vezes. A viagem que Ulisses faz transporta-nos para outros mundos através da linguagem imaginativa e colorida de Homero – esse autor misterioso cuja identidade desconhecemos até hoje. Mas, incomumente, bem sei, sempre preferi a “Ilíada”. As lutas dos deuses e a forma como as suas ações se refletem numa batalha entre os homens na Terra sempre me fascinou.

A própria mitologia grega é em si um fascínio ao qual os alunos de Letras têm dificuldade em resistir. Muito diferente, em dimensão e em conteúdo, não posso deixar de falar de “A Metamorfose” de Kafka. As poucas páginas que o autor escreveu não diminuem de todo a intensidade da história e a sua envolvência com o leitor. Pode ser um livro pesado – no seu teor, pois a sua dimensão permite-nos lê-lo num dia – e cinzento, mas a reflexão que faz sobre a sociedade e os tempos modernos é inspiradora e cativante. É uma leitura que queremos fazer até à última palavra para desvendar o final. “O Príncipe de Maquiavel” foi outro livro que me marcou, embora não me possa identificar com as propostas políticas que o autor faz. No entanto, para os amantes de política, e de clássicos, este livro é indispensável.

A sua escrita acessível e clara facilita a compreensão do raciocínio de Maquiavel, algo pouco comum nos dias de hoje quando o tema é política. O interessante deste livro é mesmo perceber as raízes do pensamento político do século XX, e por aí adiante, que está nos pilares das nossas sociedades e que, de tão profundos que estão, são difíceis de descodificar. Voltando aos clássicos gregos, não me podia esquecer de falar sobre “Rei Édipo” de Sófocles. Segundo Aristóteles, era a tragédia grega por excelência. Ora, não li tragédias gregas suficientes para formar uma opinião, mas das que li esta é, sem dúvida, uma das melhores. A história é intrigante e algo frustrante. Contudo, não deixamos de sentir uma grande empatia pela personagem principal que se vê incapaz de se desviar do seu destino traçado pelos deuses. É revelador como, já na Antiguidade Clássica, as ações humanas eram moldadas por ideologias religiosas. A forma como está escrita esta obra é simples e clara, mas muito cativante. Devo admitir que não encontro estas características nos textos dramáticos das épocas posteriores.

Por último, mas não menos importante, tenho de falar de “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago. Já tinha curiosidade em ler este livro há muito tempo, mas só em contexto académico é que me deparei com tal oportunidade. Saramago é, sem dúvida, um dos melhores escritores do nosso país e este livro ultrapassa, na minha opinião, o “Memorial do Convento”. O autor prega-nos à história logo na primeira página. A realidade alternativa que Saramago nos apresenta é de uma profundidade filosófica e reflexiva de outro intensidade. Ao longo da história. percebemos a crítica que o autor tenciona transmitir pelo livro, crítica essa que é impossível de discordar pela maneira como ele a teça ao longo do texto. Sim, não é uma leitura leve ou divertida – embora para alguns possa ser —, mas é uma leitura que nos faz pensar e questionar a sociedade em que vivemos e para a qual estamos a caminhar. Para além disso, Saramago consegue chegar até ao leitor através dos personagens mais mundanos, cujas histórias aparentemente nada têm que ver com as nossas, mas com as quais nos identificamos de alguma forma.

Para encerrar este texto, gostava de apelar para que deixemos as portas abertas aos livros para que continuem a libertar-nos desta cegueira que Saramago fala — que parece ser contagiosa, mas da qual é possível recuperarmos. Basta lermos.

 

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