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Partilhar casa com estranhos não é pêra doce. É uma receita diabólica que mistura feitios, modos de estar e viver diferentes, e que muitas vezes acaba em fortes desavenças se as interações dos envolvidos não forem devidamente regradas.

Tenho a boa fortuna de poder dizer que nunca tive de partilhar casa com alguém que não tivesse de amar obrigatoriamente segundo a lei que ditam os laços de sangue. Ao longo dos anos, tendo visto muitos dos meus antigos colegas e amigos a ter de abandonar o berço familiar, privados do conforto de um guisado que os esperava, ainda quente, depois de um dia particularmente difícil a queimar os miolos para ser engenheiro. Fui acumulando algum conhecimento desapegado sobre o que significa viver numa casa com várias pessoas. Algumas histórias de terror, abominavelmente verídicas, que me deixavam sem pregar o olho durante alguns dias, e que guardei na algibeira caso me fosse exigido numa festa uma performance de lanterna na cara. 

O entusiasmo de arrumar as malas, tornar-se independente e livre da asa imponente de quem, na vida, sempre escolheu o que era melhor para nós pode, muitas vezes, embaciar o julgamento e mascarar o odor distinto a “esturro”. Em Lisboa é o que se vê; os preços astronómicos fazem com que a única opção seja arrendar um pedaço de apartamento, de custo igualmente cósmico, com uns quantos outros gatos pingados que apenas querem acabar a licenciatura sem ficar soterrados de dívida até ao pescoço. 

E isso já é pedir muito. 

Quem tem por hábito ir gastar o salário ao Estoril sabe que as chances de se encontrar alguém com quem se coincide fundamentalmente na forma como se rege uma habitação são tão baixas quanto um jackpot sair numa slot machine. Se sair a sorte grande, não haverá a necessidade de ter conversas profundas sobre a necessidade de lavar os pratos depois da refeição. No entanto, a quem o universo parece castigar com uma vaga perpétua de má fortuna, o mais certo é ter de estipular certas regras para que todos se entendam minimamente.

  • Respeitarás os teus colegas de casa

Uma primeira medida fundamental, que serve para todos os aspetos da vida mundana, mas que é importante frisar neste contexto em que a palavra “respeito” pode significar algo muito diferente de pessoa para pessoa. A meu ver, o nível de respeito concedido a alguém é como um reservatório: está cheio aquando da primeira interação, durante os apertos de mão, e os consequentes dias de aclimatação à casa; depois, vai gotejando, fazendo verter fios de “respeito” líquido a cada intransigência. O nível de abertura da torneira difere. Salvo gravíssimas violações do senso comum, como a utilização de uma escova de dentes que não a própria (algo que deveria ser, no mínimo, ilegal), muito dificilmente se perde todo o respeito por alguém. Ao longo do tempo, é normal que se crie um entendimento mútuo acerca do que tudo isto significa. Mas enquanto mandamento, é abrangente o suficiente para incluir todos os que se seguem.

  • Deverás manter o trono sanitário limpo e higienizado (se for uma área partilhada)

Muitas das histórias que já ouvi têm como cenário a divisão que é, inequivocamente, a mais importante: a casa de banho. Parece que, no que conta à sua utilização, é comum as pessoas prescindirem de toda a cautela, de toda a destreza física que faz delas seres humanos funcionais, para assim deixarem uma herança inesperada da sua presença. Não quero entrar em detalhes, mas houve quem me dissesse que sabia sempre quando o coabitante tinha estado lá por último. Como um Sherlock Holmes cujo caso acaba antes de sequer começar: deslocado à cena do crime, as pistas estão à vista e o culpado deduz-se por exclusão de partes.

Não se entende como é que algumas casas de banho de residência, por opção de uma das (ou mais) partes, têm um aspeto idêntico às retretes públicas, com o mesmo ar cansado e descolorado que faz delas a última opção de alguém que preza a sua saúde, em qualquer capacidade.

  • Não submeterás os outros aos teus gostos musicais

Confesso que esta medida pode ser controversa. Na verdade, quando ouvi o queixume de uma amiga minha a propósito deste tema, não lhe dei a devida importância. A música é uma forma de conexão entre pessoas, partilhar uma canção de que se gosta com alguém é querer ter essa pessoa mais perto, dar-lhe a conhecer um pedacinho de quem somos. Levanta-se, no entanto, a questão de saber se todas as circunstâncias são as mais adequadas para proceder a uma partilha musical. Hipoteticamente, e por mais que se adore o intérprete, ouvir Quim Barreiros a um volume capaz de perfurar o tímpano, às 2 da manhã, e enquanto o colega de casa se prepara para um serão bem passado com a cabeça enfiada nos livros, não será propriamente bem recebido por este último. Quem diz Quim, diz qualquer outro artista. Ninguém gosta de ouvir a festa pela parede do quarto.

  • Não acumularás a louça suja

Segue-se a sabedoria de certa forma universalmente aceite de que quem suja os utensílios de cozinha adquire a responsabilidade de os lavar imediatamente após o consumo dos espécimes alimentícios. Ou, vá, não imediatamente após, mas mediante uma brevidade que não implique que estes ganhem bolor e se adiram uns aos outros no lavatório. 

Experienciei em primeira mão uma grave violação deste mandamento quando, numa visita inocente ao apartamento onde a minha irmã fazia ninho por não ter forças para regressar à margem Sul terminadas as aulas em regime pós-laboral, vi em cima do fogão uma panela de ex-sopa que criara um ecossistema nas paredes da cerâmica. Até poderia desculpar uma tentativa à criação de penicilina, por uma estudante de medicina ansiosa por superar expectativas, não fosse a colega de casa da minha irmã operadora de call center.

  • Não cobiçarás a comida do outro

É possível encontrar em algumas casas a prática de separar as prateleiras da despensa para que cada coabitante saiba a quantidade de arroz com que pode contar até ter de comprar um novo pacote. Assim sendo, é algo desconcertante quando este vai emagrecendo, bago a bago, enquanto as refeições que se fazem vão chegando às costas de um homem numa mota. 

O mistério pode sempre ser culpado no mundo animal, nalguma peste que aproveita as altas horas da noite para se apoderar da cozinha. Numa infestação de ratos com dotes culinários que, ao mesmo tempo que roubam esparguete, aproveitam os restos esquecidos no frigorífico para fazer um refogado. Reza a lenda que o filme “Ratatouille”, aclamado pela crítica, bebe de histórias de universitários que viram desaparecer comida em caldeirões alheios, e que preferiram acreditar em fábulas ou no sobrenatural do que ter de encarar que da  mão que estenderam, lhes foi levado o braço todo. 

  • Uma porta fechada abrir-se-á mediante licença

Algumas famílias têm a regra tácita de deixar as portas destrancadas, até mesmo escancaradas, de modo a facilitar o acesso ao proprietário do quarto. O indivíduo oriundo de tais famílias, regra geral, enfrenta o mundo munido de uma dose de otimismo que o possibilita encarar toda a porta fechada não como um dado definitivo, mas como uma mera sugestão. Não existem obstáculos que não sejam facilmente superados pelo rodar de uma maçaneta. 

Isto pode ser um grande ponto de contenção para alguém que tem por hábito seguir uma série de passos antes de receber alguém no seu espaço: o leve raspar do lado de lá da porta, a voz que pergunta se pode entrar, a ponderação que desencadeia esse pedido e que culmina numa resposta de “sim” ou “não”.

  • Não abusarás da bondade do próximo

Tomemos a frase, na minha opinião sobreutilizada, “o que é meu é teu”. Este é um sentimento bastante agradável de se partilhar com um estranho cujo teto será o mesmo que o nosso durante um tempo indefinido, uma vez que abre portas a uma maior intimidade e cumplicidade. Significa que se cria um vínculo sagrado entre pessoas que se procuram mutuamente num espaço em que, de outra forma, estariam completamente isoladas. Em circunstâncias normais, a máxima “o que é meu é teu” só atinge o auge do seu sentido se for proferida por um pai a um filho, ou dentro do âmbito conjugal. 

À parte disso, é como dizer a um amigo distante que é absolutamente imprescindível que se vá beber café. Não vai acontecer, mas no momento ambas as partes se convencem dessa possibilidade. Posto isto, não é insensato esperar que a pessoa a quem se estendeu esta cortesia tenha a decência de perguntar antes de pesquisar o roupeiro do colega de casa, como quem frequenta um centro comercial, ou que deixe em paz o seu gel de banho.

  • Não deixarás cabelo no ralo

É um problema que se calhar diz respeito, nomeadamente, às habitações cujos residentes preferem os cabelos longos. Uma casa cheia de estrelas de rock, possivelmente, tem tantos problemas nos canos como uma residência feminina. Como tal, este mandamento surge para salvaguardar o estado da canalização, que acaba por ser uma chatice mandar arranjar. 

Além de que não é muito agradável emergir do banho com um emaranhado capilar entre os dedos dos pés (infelizmente, uma história verídica).

  • Não convidarás pessoas todos os dias

Uma amiga minha, com um autoproclamado excesso de experiência nestas matérias, enunciou-me este mandamento. Fez a travessia de Aveiro até à residência onde mora, perto da faculdade, há pouco mais de três anos. Com o passar do tempo, viu  mudarem os colegas de quarto como se muda de estação, periodicamente, sendo que do elenco original do seu apartamento, apenas ela continua hospedada no mesmo quarto que a acolheu enquanto caloira. Hoje em dia, é ela que impõe as regras aos recém-chegados, como uma mãe que zela pelo bem-estar dos seus, ao mesmo tempo que quer ter o sossego que merece depois de um dia de trabalho. Assim, as únicas faces recorrentes no dia-a-dia de sua casa são as que pagam a renda. 

  • Não roubarás tupperwares

Um tema recorrente nas conversas de quem partilha casa com outros é, surpreendentemente, a do roubo de um item em particular. Sendo eu possuidora de vários recipientes deste tipo, sei o quão fácil é extraviar uma tampa, ou esquecer por inteiro um tupperware, vazio ou não, num sítio improvável. 

No entanto, não se trata de falta de tino quando, de uma assentada, a prateleira designada para estas caixinhas se esvazia e não se tem onde guardar a sopa (que de preferência foi cozinhada há menos de uma semana). O furto de tupperwares enquanto experiência cultural universal é um fenómeno que me ultrapassa, mas toda a gente que partilha ou já partilhou casa tem um repertório de histórias dignas de um romance policial. Talvez os ladrões tenham conhecimento de uma iminente rutura de stock na fábrica que manufatura estes produtos e, como quem coleciona comida enlatada para uma eventual catástrofe, estejam a empilhar tupperwares, os deles e os dos outros, preparando-se para o pior.

 

 

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